Ana P de Madureira (Portugal)

 
Ana P de Madureira (Portugal)
 
Ana P de Madureira, Portugal. Algarvia, de Olhão, formada em Design de Interiores e Equipamento Geral, pelo IADE. Professora de Artes Visuais. Autora em poesia de, “Antes Ser Vento” e “Nos Dedos as Palavras”. Participou no IV Encontro Hispano-Luso de Poesia ”Punta Umbria En La Poesia”. Colaborou com a Associação de Jornalistas e Escritores do Algarve; assim como na Revista Sizígia, da Canal Sonora; também na Antologia Universal Lusófona, Rio dos Bons Sinais; no 7°Festival Internacional de Poesia e Arte Grito de Mulher e nos Cadernos Poesia a Sul como convidada do respectivo Festival. Participou na Feira do Livro de Olhão, 2019. Foi publicada na Magazine Luz Cultural, em Espanha. É coautora da coletânea Ideários, 2019 e da coletânea Duetos Dordianos, 2020, bem como da Antologia polaco-portuguesa, Azulejo Vestido com Centáureas, 2020. Em 2021 é publicada na revista polaca, “Kontent”, edita o livro de sua autoria em poesia, “Tsunami”, sendo ainda coautora, neste ano, da antologia, Letras em Marcha.
 
 
voz a minha
 
raptada pelo espaço
por onde o fonema morre
eremita
 
deserto
e os picos nos cactos
escrevendo vermelho
na mão
 
braseira a da garganta
gesticulando
sem sombra
a dor do agudo
 
e as crianças
descalças
soprando o vento
verdejam os caminhos
cantando
 
 
flutuo na densidade
 
que me adentra
e labirinta
por entre as tantas que sou
 
olho-me molecularmente
e abro carreiro
até à clareira das minhas insónias
 
há luz refractando a intensidade
que torna coesas as bocas
antagónicas e desvairadas
que na angústia ou no deslumbramento
gestualizam a comoção
 
plural o cordão umbilical
que me ade
e reconstrói igual
na muda da pena
onde a nudez criva
todos os recortes
que me vincam a essência
no descompasso do espanto
 
minúsculo arvoredo
o que por entre copas altaneias
abre os pulmões ao sol
e canta a floresta
 
ingénuo e livre
 
 
há lâminas nas garras
 
e o corte fundo e fino
ao rubro
dos filamentos
 
nervuras
com pele de criança
rasgam alucinadas o uivo
de quem se perdeu da mãe
 
e tiritam
tiritam
por entre o vazio
que finca o olhar
no aperto
das folhas tombadas
que estalam gemidos
sob cada passo
 
sentires
oscilantes
os que no estômago
sorvem o ácido do vento
enquanto as árvores não nascem
 
 
pétalas
 
que se alisam
com o fulgor da luz
no sopro do respiro do desejo
em carícias de lábios
e incandescem refegos
que terra adentro se ocultam
 
intumescidas desabrocham
orvalhos e seivas
chuvas de Agosto
inesperadas e quentes
que em salpicos
agitam o mar
adoçando-lhe o profundo
trazido à tona em mel
até que os hálitos se mesclem
cegos
no ardor do intemporal
 
 
e se os meus beijos
 
se esculpirem água
na tua boca
charco o que te espelha
em rio
nas línguas
silenciosas
que embalam
os barcos
navegarei
no teu corpo
nesse ensejo da remada
 
 
e danço-te
 
redopio o das conchas
de olhos fechados
que remam na noite
a dormência
até ao estrondo
do relampejo
 
e na intimidade
as águas
 
 
águas ancestrais
 
que em mim são veia
tremendas na dança
nesse orgasmo
que é êxtase nos céus
 
salguem-me
com todos os azuis
o corpo
que guarda
a minha Alma de Mulher
 
 
inverto a mudez
 
que na opacidade do olhar
enrouquece a angústia
e com gaze engessada
branqueio o caminho
plantando com harpas o trilho
para que os teus ouvidos cansados
ouçam
 
tremores os do corpo
esculpido na memória dos destroços
que se flectem nas rótulas
até que o chão impeça os passos
pelas ervas daninhas
na calçada
 
e no desencanto em verde
as minhas lágrimas
 
@Ana P de Madureira
 

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