Poema Masoquista – Katarina Sarić / Tradução portuguesa: Maria do Sameiro Barroso

 
Poema Masoquista
 
É Inverno.
Uma pequena ferida surgiu na palma da minha mão esquerda,
é sinal de dinheiro, é o que se diz quando a comichão aparece na palma da mão.
A pequena ferida torna-se uma cratera,
que esvazio
(os caçadores de tesouros rejubilariam!)
 
De forma masoquista
lasciva
coloco todas as minhas memórias lá dentro.
 
São muitas e terrívelmente barulhentas (detestavas quando eu fazia barulho):
 
uma botina de futebol através da qual me tocaste no pé (no nosso primeiro toque).
 
E um radiador que agora uso em vez de um cobertor
e uma garrafa de conhaque de ameixa (caseiro) eternamente vazia
um manuscrito eternamente inacabado
(até o guarda-roupa onde queria empilhar as tuas camisas passadas a ferro).
 
Todas as minhas palavras e queixumes femininos foram lá parar
os gritos e os aguaceiros de lágrimas
e os balões cheios que nunca quiseste perseguir
(e foi por isso que os furaste?)
 
 
***
 
so the dirt leaks out.
So that you too are gone.
So that I too am gone.
So that we leak out with it.
 
So that the memories and all the insults with which we spilt blood fighting
leak out too (when for the first time we, as one symposium, shoot the noise together),
because we were not for each other.
 
Because we were (were we not?) alike,
as once we used to be, as we are now.
 
As this little wound, a grotesque,
in the crater of winters.
 
And it is only now that we are the same.
The perfect identity.
Perfectly punctured and empty.
 
And yes.
 
Now we would be the match:
The perfect couple.
 
 
***
 
Tragou a tua presunção imatura
e tua necessidade de me punir com silêncio, como um homem.
Pesadamente e por muito tempo.
Assim foi crescendo cada vez mais
E tamb+em inchou hipérbole, azulada e feia
sapo indizível.
 
Aguardo a sublimação da supuração até que rebente,
para expelir os detritos.
Para que também vás embora.
Para que eu também vá
Para que nos esvaziemos nela.
 
Para que as recordações e todos os insultos com os quais o sangue esguicháva ao lutarmos
se esvaziem também (como quando, pela primeira vez, numa festa, falavamos ao mesmo tempo),
porque não éramos um para o outro.
 
Porque éramos (ou não éramos?) parecidos,
como costumavamos ser, como agora somos.
 
Como esta pequena ferida, grotesca,
na cratera dos Invernos.
 
E só agora somos iguais.
Somos a semelhança perfeita.
perfeitamente perfurada e vazia.
 
E sim.
 
Agora poderíamos ser o par:
O casal perfeito.
 
 
 

Tradução portuguesa: Maria do Sameiro Barroso

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